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Libelo
(Vinicius de Moraes)
De que mais precisa um homem senão
de um pedaço de mar - e um barco com
o nome da amiga, e uma linha e um anzol
pra pescar?
E
enquanto pescando, enquanto esperando,
de
que mais precisa um homem senão
de
suas mãos, uma pro caniço, outra
pro
queixo, que é para ele poder se
perder
no infinito, e uma garrafa de
cachaça
pra puxar tristeza, e um
pouco
de pensamento pra pensar até
se
perder no infinito...
De
que mais precisa um homem senão
de
um pedaço de terra - um pedaço bem
verde
de terra - e uma casa, não grande, branquinha, com uma horta e um
modesto
pomar; e um jardim - que
um
jardim é importante - carregado
de
flor de cheirar?
E
enquanto morando, enquanto esperando,
de
que mais precisa um homem senão
de
suas mãos para mexer a terra e
arranhar
uns acordes de violão quando
a
noite se faz de luar, e uma garrafa de
uísque
pra puxar mistério, que casa
sem
mistério não tem valor de morar...
De
que mais precisa um homem senão
de
um amigo pra ele gostar, um amigo
bem
seco, bem simples, desses que
nem
precisa falar - basta olhar - um
desses
que desmereça um pouco da
amizade,
de um amigo pra paz e
pra
briga, um amigo de paz e de bar?
E
enquanto passando, enquanto esperando,
de
que mais precisa um homem senão
de
suas mãos para apertar as mãos
do
amigo depois das ausências, e pra
bater
nas costas do amigo, e pra discutir
com
o amigo e pra servir bebida à vontade
ao
amigo?
De
que mais precisa um homem senão
de
uma mulher pra ele amar, uma mulher
com
dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular?
E
enquanto pensando, enquanto esperando,
de
que mais precisa um homem senão de um carinho de mulher quando a
tristeza o
derruba,
ou o destino o carrega em sua
onda
sem rumo?
Sim,
de que mais precisa um homem senão
de
suas mãos e da mulher - as únicas
coisas
livres que lhe restam para lutar
pelo
mar, pela terra, pelo amigo...
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